Vender ou se associar a um grupo educacional exige olhar além dos números
Vender uma escola ou se associar a um grupo educacional é uma decisão que vai além da avaliação financeira do negócio ou da transferência de controle. Para quem construiu uma instituição ao longo de anos, entram nessa equação o projeto pedagógico, a cultura, as relações estabelecidas com professores e famílias e a própria identidade da escola.
Esses fatores ganham ainda mais importância porque, diferentemente de outros negócios, uma escola continua funcionando enquanto a transação acontece. Alunos seguem frequentando as aulas, professores precisam conduzir o trabalho pedagógico e famílias esperam que a qualidade do ensino e do atendimento seja preservada durante a transição.
“Quando se olha uma operação apenas pelos números, uma parte importante da escola fica de fora. Há uma história construída com professores, famílias e alunos, uma cultura e um projeto pedagógico. Na nossa experiência, entender o que precisa ser preservado e onde existem oportunidades de evolução é uma parte fundamental desse processo”, afirma Maria Cláudia Amaro, CEO do Grupo Rhyzos.
O que está sendo negociado além dos ativos
A decisão de vender uma escola ou se associar a um grupo envolve compreender o que acontecerá com características que foram construídas ao longo da trajetória da instituição. Projeto pedagógico, autonomia das lideranças, cultura e relação com a comunidade escolar são alguns dos aspectos que entram nessa análise.
A integração a um grupo educacional também pode ampliar o acesso a tecnologias, sistemas de gestão, formação de professores e estruturas administrativas que seriam mais difíceis de desenvolver de forma isolada. O desafio está em identificar onde a escala pode trazer ganhos e, ao mesmo tempo, quais características da instituição fazem parte de sua identidade e precisam continuar reconhecíveis para alunos, professores e famílias.
Esse equilíbrio fez parte da experiência vivida pelo Grupo Rhyzos, em 2025, na aquisição da Escola Mais. A operação marcou a entrada da Rhyzos na gestão direta de escolas de educação básica.
Maria Cláudia já acompanhava o projeto da Escola Mais desde sua concepção. Anos antes da aquisição, havia recebido um convite para participar do negócio como sócia, mas decidiu naquele momento seguir outro caminho e criar a Rhyzos Educação. A aproximação com o projeto, portanto, antecedeu em vários anos a decisão de assumir a operação.
Uma aquisição também exige escolhas sobre o que muda e o que permanece
A transferência das três unidades (Vila Andrade, Ipiranga e Vila Sônia) foi estruturada de forma gradual. A antiga controladora permaneceu responsável, durante um período de transição, pelo suporte administrativo e de backoffice. A plataforma tecnológica e os conteúdos que sustentavam o projeto pedagógico permaneceram sob sua propriedade.
Para a nova gestão, assumir as escolas significou também avaliar o que deveria ser preservado e o que poderia evoluir. A proposta da Escola Mais, voltada à oferta de educação integral com mensalidades mais acessíveis, permaneceu como parte do projeto, ao mesmo tempo em que a Rhyzos passou a incorporar soluções próprias e revisar aspectos da operação.
“Assumir uma escola que já tem uma história é diferente de começar um projeto do zero. É preciso primeiro entender o que funciona, ouvir quem vive aquela realidade e só então decidir onde faz sentido mudar. Nem tudo precisa permanecer igual, mas também não é porque houve uma aquisição que tudo precisa ser reconstruído”, diz Maria Cláudia.
A experiência também evidencia uma questão importante para quem considera uma associação: antes de discutir apenas condições financeiras, é preciso haver clareza sobre o projeto que cada parte pretende construir. Quem toma as decisões? Qual será o espaço das lideranças que já estão na instituição? O que muda para professores e famílias? Onde estão as oportunidades de ganho de escala? São questões que ajudam a antecipar como a associação será percebida quando sair do contrato e chegar ao cotidiano da escola.
A integração começa quando a transação termina
Uma operação de aquisição tem uma data para ser concluída, mas a integração entre as organizações continua depois dela. É nesse período que decisões sobre gestão, processos, pessoas, comunicação, tecnologia e projeto pedagógico passam a ser percebidas no cotidiano.
No caso da Escola Mais, alunos e famílias foram ouvidos durante o planejamento das mudanças para o ano seguinte à aquisição. A gestão também passou a buscar maior eficiência operacional, ao mesmo tempo em que avaliava ajustes pedagógicos e oportunidades de crescimento.
Para fundadores e gestores que consideram vender uma escola ou se associar a um grupo, a experiência mostra que o valor da operação é apenas uma das dimensões da decisão. Tão importante quanto definir as condições do negócio é compreender qual escola existirá depois dele.
A continuidade do projeto educacional não significa impedir mudanças. Significa construir uma transição na qual crescimento, eficiência e inovação possam conviver com aquilo que deu identidade à instituição e construiu sua relação com a comunidade escolar.